A cara do Brasil

JUCA KFOURI


A seleção brasileira será assunto sempre porque reflete a vida nacional até nos detalhes


O NARRADOR UFANISTA se esgoela na TV tentando passar uma paixão que o povo já não sente pela seleção brasileira de futebol.

Os analistas sérios reconhecem as deficiências, admitem que a soberania nacional acabou, identificam a falta dos grandes que decidem, como Mané, Pelé, Romário, Ronaldo, Rivaldo, mas, talvez por teimosia, e mais por nostalgia, acreditam que estamos apenas diante de uma crise passageira, de entressafra, como já ocorreu tantas e tantas vezes.

Só que em seleção que não tem gol todos concordam e ninguém tem razão.

É sabido que as derrotas são órfãs e as vitórias, repletas de pais e mães. Há campeões mundiais que passariam despercebidos na carreira não fosse o título -e aqui a referência inclui titulares da campanha do pentacampeonato- e há gênios, estes vale citá-los, como Arthur Friedenreich, Leônidas da Silva, Ademir de Menezes, Falcão, Zico, Sócrates, Reinaldo, Careca, que não tiveram o gosto.

E muitas vezes a derrota ou a vitória dependem de um detalhe. Do detalhe que leva o árbitro a favorecer o Brasil contra a Espanha, na Copa de 1962, ou, como na de 2002, de novo o Brasil em vez da Bélgica. Do detalhe do pênalti não marcado em Zico contra a Itália, na Copa de 1982, embora naquela tarde em Sarriá os italianos tenham até sido melhores que os brasileiros num duelo de gigantes.

Mas mesmo em Copas de pouco brilho, como nas de 1986 e de 1990, a seleção brasileira foi eliminada em jogos em que jogou mais que seus algozes, os franceses, no México, e os argentinos, na Itália. E se não se contesta a vitória da França em 2006, num show inesquecível do monstruoso Zinedine Zidane, o que seria da Holanda se a sorte fosse um pouco generosa com o time de Dunga no primeiro tempo, em 2010?

Tudo isso para lembrar que tudo é muito relativo. E para sublinhar que quando nos envolvemos em discussões intermináveis sobre as causas deste mau momento não podemos nos esquecer de que sempre que a seleção brasileira viaja ao exterior, e o primeiro a descer do avião é o presidente da CBF, já está 1 a 0 para o time rival. Às vezes dá para virar, às vezes não, como tem sido mais frequente.

Menos mal que a Polícia Federal age.

Para desconforto não só em Jacarepaguá como também no Tatuapé.

Porque a faxina não pode mesmo se limitar à Esplanada dos Ministérios.

Juca Kfouri - blogdojuca@uol.com.br
Colunista - Folha de S. Paulo
Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

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