Datafolha mostra que, para maioria, viciados em crack devem ser internados para tratamento mesmo que não queiram. Conselho Federal de Psicologia é contra a medida, mas alguns a defendem para casos agudos de vício
É quase uma unanimidade: 9 em cada 10 brasileiros acham que os viciados em crack devem ser internados para tratamento mesmo que não queiram. É o que mostra pesquisa nacional do Datafolha feita na semana passada. Questionados se um adulto dependente de crack deveria ser internado para tratar seu vício mesmo contra a vontade, 90% dos entrevistados disseram que sim. A concordância é praticamente a mesma entre homens e mulheres e em todas as faixas etárias. Cai um pouco entre os moradores do Sul (86%), os que têm ensino superior (84%) ou renda acima de dez mínimos (79).
A chamada internação involuntária (feita à revelia do paciente/viciado) é prevista na lei 10.216, de 2001, que trata de doentes mentais. Ela exige a recomendação de um médico e que seja comunicado o Ministério Público em até 72 horas, para que se evitem abusos.
O tema voltou a criar polêmica com o lançamento, em dezembro, do plano federal de combate ao crack e com a ação da PM na cracolândia, iniciada no dia 3 pelo governo do Estado de São Paulo. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu a internação involuntária dos craqueiros. Ganhou o apoio de alguns psiquiatras e o repúdio de psicólogos.
O psiquiatra Marcelo Ribeiro, professor na Unifesp e um dos organizadores do livro "O Tratamento do Usuário do Crack", diz que a internação involuntária deve ser considerada para os que estão numa fase aguda do vício, quando o drogado perde a capacidade de escolher se deixa ou não o consumo do crack, e é o primeiro passo para que o viciado recupere a condição de analisar a própria vida. "[A medida] Deve durar de duas a quatro semanas. Aí ela recebe alta e é encaminhada para um tratamento de longa duração, que será conduzido se o viciado concordar."
Já o Conselho Federal de Psicologia é contra. O presidente do órgão, Humberto Verona, diz que a internação involuntária não pode ser vista como sinônimo de tratamento. "O que querem fazer é apenas uma limpeza das ruas. Essas internações são, muitas vezes, pura privação da liberdade ou uma forma de aplacar a culpa das famílias dos viciados", afirma. Para Verona, a maioria da população apoia a medida por ter a ilusão de que, feita a internação, o problema do drogado está resolvido.
DIREITOS – Outro argumento dos que discordam da internação sem o consentimento dos doentes é que os direitos deles estariam sendo violados. Cid Vieira de Souza Filho, da Comissão de Estudos sobre Educação e Prevenção de Drogas e Afins da OAB-SP rebate. Para ele, o que se vê nas cracolândias são pessoas que atentam contra a própria vida e a dos outros. "Nesses casos, o Estado deve agir de forma enérgica para garantir a vida."
Apesar de divergências, todos concordam num ponto: a adesão voluntária a um tratamento de longo prazo é essencial para que o viciado ao menos retome uma vida familiar e profissional.
O Datafolha ouviu 2.575 pessoas em 159 cidades. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
2% admitem em pesquisa já terem usado crack
8% das pessoas dizem ter familiar viciado
A pesquisa Datafolha mostra que 2% dos brasileiros com mais de 16 anos admitem já ter experimentado o crack. Isso significa cerca de 3 milhões de pessoas. É pouco mais que o dobro da estimativa de usuários da droga no país (1,4 milhão), o que inclui também menores de 16 anos. O percentual é maior na região Sul (3%) e entre os que têm baixa escolaridade (3% naqueles que no máximo concluíram o ensino fundamental e de 1% entre os que possuem nível superior).
Quando questionados se ainda usam a droga, o índice cai para zero, o que pode ajudar os que querem desmentir a ideia de que o crack é uma droga altamente viciante desde o primeiro contato. O percentual é o mesmo encontrado numa pesquisa feita nos Estados Unidos em 2001 -2% da população com mais de 12 anos daquele país afirmou que já havia fumado crack ao menos uma vez na vida. Mas o contato com a droga tem caído nos Estados Unidos, ao contrário do que acontece no Brasil, mostram outras pesquisas.
Em 2002, 337 mil americanos afirmaram ter experimentado crack no ano anterior. O número caiu para 83 mil em 2010.
FAMÍLIA – Outro dado que mostra a penetração do crack no Brasil é que 8% dos entrevistados pelo Datafolha dizem ter alguém na família que atualmente usa a droga. Numa entrevista recente, até o diretor do Denarc (Departamento de Investigações sobre Narcóticos da Polícia Civil de São Paulo), Wagner Giudice, disse ter um primo viciado em crack.
USO E CRIME – O levantamento do Datafolha mostra também que a posição do brasileiro com relação às drogas, principalmente a maconha, não mudou nos últimos anos. Hoje, 77% dizem que fumá-la deve continuar a ser crime. É quase o mesmo percentual apurado em agosto de 2006 (79%) e em março de 2008 (76%).
O índice era um pouco mais alto há 17 anos, em março de 1995 (81%). O maior percentual de pessoas a favor da descriminalização é encontrado na região Sul (25%). O menor, no Nordeste (16%).
Sobre outras drogas ilícitas, 91% firmam que seu consumo deveria continuar proibido.
VAGUINALDO MARINHEIRO – FOLHA DE S. PAULO (25/01/2012)


