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Redes sociais, as novas parceiras de estudo

Escolas usam Facebook e até criam sites próprios para conectar alunos e professores, além de tirar dúvidas






Twitter e Facebook costumam ser considerados inimigos dos estudos por muita gente. Mas algumas escolas já estão se rendendo às redes sociais e as usando como aliadas na preparação dos estudantes e na comunicação entre alunos e professores. A Escola Parque, na Gávea, desenvolveu, no início do ano passado, a EP2, uma rede social interna semelhante ao Facebook. O projeto foi criado dentro da plataforma Ning, que permite a qualquer um customizar uma rede de acordo com suas necessidades. Na EP2, estudantes a partir do 6 ano podem escrever em seus murais, enviar mensagens diretas e participar de grupos de interesses específicos. O espaço virtual é coabitado por alunos e professores.






O coordenador do segundo segmento do ensino fundamental da escola, Giocondo Magalhães, explica que a ideia é educar os mais novos para as possibilidades de uso e também sobre os perigos das redes. Além de ser mais um espaço de difusão do conteúdo das disciplinas e dos trabalhos escolares.






— Ninguém ensina para eles como atuar nos meios digitais. O que a gente tenta é ajudá-los a tirar um uso pedagógico disso. Já acontecia de um professor colocar conteúdo sobre a disciplina no Facebook, como um vídeo do YouTube. Nossa ideia foi trazer essas experiências para um ambiente seguro, que fosse uma extensão virtual da escola. Além de não ter a limitação de idade de redes como o Facebook (que só aceita usuários maiores de 13 anos, o que é largamente burlado) — afirma o professor.










Professores ficam alertas para evitar cyberbullying






Os estudantes tiveram voz ativa na criação da EP2, apontando os recursos que julgavam mais importantes. E a participação rendeu frutos, pois os alunos abraçaram a ideia. Eles contam que, na rede, compartilham fotos e vídeos, além de usar a ferramenta de bate-papo e, principalmente, tirar dúvidas com professores.






— Uso bastante a EP2 para falar com os professores. Eles tiram dúvidas das matérias, é muito bom. Parece que eles ficam lá o dia inteiro, sempre estão on-line — conta Tamara Castorino, de 12 anos, que vai começar o 8 ano.






O coordenador afirma que os estudantes têm liberdade para postar e criar grupos de acordo com seu interesse. Na rede, é possível encontrar alguns dedicados a ídolos adolescentes, como Justin Bieber, e a times de futebol, como o Botafogo. Contudo, ele diz que há uma supervisão para evitar qualquer tipo de cyberbullying.






— Há uma questão de ética nas redes que a gente trabalha com eles. Ali, estão valendo os mesmos valores da escola. Discutimos com eles tudo ligado à discriminação e continuamos de olho para evitá-la — diz.






No Colégio Palas, no Recreio, a vontade da integração resultou na criação de um grupo no Facebook da turma do 3 ano do ensino médio, exclusivo para para alunos e professores da escola. Foi lá que eles passaram o ano passado trocando informações sobre datas de inscrição em vestibulares, resultado de provas do colégio e de seleções da universidades Além de tirar dúvidas das lições de casa e postarem vídeos e reportagens sobre os assuntos que viram em sala de aula.






— Os estudantes usam muito e há professores engajados também. A gente valoriza, mas $ão prioriza. Eles estudam com o grupo, vão trocando informações entre si. E dessa maneira funciona. Além disso, tem um fator motivacional também: um dá força para o outro o tempo todo — afirma Célia Regina, coordenadora da escola.






A professora Eloiza Gomes de Oliveira, da Faculdade Educação da Uerj, e pesquisadora do uso das redes sociais na educação, é a favor da escola usá-las como ferramentas pedagógicas. Mas alerta que é preciso seguir alguns passos para que o projeto dê certo e conte com a efetiva participação dos estudantes.






— As redes são um espaço de liberdade para os adolescentes, são um lugar para eles se expressarem. Quando a escola entra, não é a mesma coisa. Os alunos temem ser policiados, então é preciso ser muito transparente na relação. É preciso garantir a autonomia $estudante para que a dinâmica possa acontecer. O professor dá o pontapé inicial, mas não pode engessar a experiência — defende ela, que descarta a possibilidade de o uso das redes sociais provocar distração. — Quando eles fazem um trabalho em grupo, não estudam o tempo inteiro. Eles conversam, jogam. Isso não é uma coisa da internet, é natural do próprio jovem.






Grandes grupos internacionais de educação, voltados principalmente para cursos de inglês e preparatórios para a universidade, também miram no chamado “social learning”. O conceito pretende levar interatividade e a colaboração, base da chamada web 2.0, para o centro do processo de aprendizado.






A EmbassyCES, braço de idiomas do Study Group, montou o portal Study Smart. Nele, o foco é no aprendizado do aluno fora de sala de aula. Estão disponíveis exercícios interativos e o plano de aula para cada semana. Assim, o estudante pode acompanhar o seu progresso e até acelerar sua troca de nível. A Study Smart aposta também na interatividade: os próprios estudantes criam glossário de termos para as unidades do livro e ainda podem fazer grupos de estudo em salas de bate-papo.






Já a Kaplan International lançou em 2011 um projeto piloto, o Student Portal, implantado em uma escola em Londres e outra em Sydney, na Austrália. O formato é bem parecido com o do Facebook, com timeline, chat e mensagens privadas. Por enquanto, ele é usado principalmente por estudantes estrangeiros que ainda vão chegar aos cursos e aproveitam para se conhecer melhor. Há uma seção também que permite se inscrever nos passeios oferecidos pela escola no seu tempo livre, como idas a partidas de futebol ou museus.






A ideia é, no futuro, integrar totalmente a rede social à plataforma de ensino virtual já existente. Atualmente, a conexão é feita apenas através de um blog. Para o diretor-geral da Kaplan no Reino Unido e Irlanda, Erez Tocker, a proposta é aproveitar o tempo que os jovens já passam conectados. — Eles passam muito tempo conectados, especialmente no Facebook. Então, a ideia é que o portal seja o nosso próprio Facebook e que eles passem mais tempo lá. Não podemos virar às costas para o que já está acontecendo — argumenta Tocker.









Ser ou não ser amigo?






Docentes se dividem sobre como deve ser a relação com estudantes na internet








As redes sociais abriram um novo front para a relação entre alunos e professores. No caso específico da escola, mestres e estudantes podem se relacionar no Facebook e no Twitter? Os docentes têm liberdade de decidir como vão se comportar. Há quem prefira nem entrar nas redes para evitar qualquer contato. Outros interagem bastante por meio da internet.






O professor de história Ulisses Martins, do curso preparatório do Colégio Nacional, tem diversos alunos como “amigos” no Facebook e se conectam diariamente com eles. Ele crê que se trata de uma ferramenta importante até para eventuais problemas extra-classe.






— Ajuda bastante porque você se aproxima do aluno, não é apenas aquele cara que fica lá na frente falando um bando de coisas. Eles mesmos às vezes passam por um momento difícil em casa e vêm pedir ajuda, conselhos. Nas redes, eles ficam mais à vontade. Se percebo que determinado aluno não está muito bem na aula, eu o chamo no Facebook, pergunto o que aconteceu — diz Ulisses, que também enxerga problemas na relação. — É preciso tomar cuidado, porque na rede social você continua sendo professor e, mesmo que não queira, é um modelo para os alunos.






Já o professor de sociologia Gustavo Bentoche, do colégio Palas, não tem perfil em redes sociais. No passado, ele chegou a ter Orkut, mas percebeu que não conseguiria dar conta de responder a todos que falavam com ele. — Conheço vários professores que participam, mas comigo não funciona. Meu tempo livre, que é pouco, eu passo $, lendo e com a família. Não tenho tempo para administrar um perfil. No Orkut, acontecia de as pessoas entrarem em contato, e eu as deixava sem resposta — argumenta.







A professora da Uerj Eloiza Gomes de Oliveira, pesquisadora das redes sociais na Educação, acredita que essa é uma relação problemática e que é preciso cuidado. — A relação entre professor e aluno não é simétrica. Ela deve ser afetuosa, democrática, mas não é simétrica. Eticamente, é muito difícil. O docente vai precisar tomar uma série de cuidados. Particularmente, não me agrada — afirma Eloiza.






O professor de ciências da Escola Parque, Igor França, é um dos mais ativos na EP2. Mas, no Facebook, criou dois perfis: um para ser adicionado pelos alunos e outro para a sua vida pessoal. Na sua opinião, alguns comentários ou postagens podem ser mal interpretados pelos alunos.






— A EP2 é uma oportunidade de compartilhar o que produzimos em sala, e eu uso. Já o Facebook não é o mesmo espaço da escola. Às vezes, um amigo meu pode fazer uma brincadeira no meu mural que os estudantes podem compreender de forma errada — justifica.




Jornal O Globo - 23/01/2012
 

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