Emprego no novo mundo do trabalho
por Márcio Pochmann, em 06/07/2007
FEAAC – O que está mudando no mundo do trabalho hoje?
Márcio - Está ocorrendo na indústria algo próximo do que ocorreu na atividade agropecuária. Há cem anos, em cada dez pontos de trabalho, praticamente oito pertenciam ao setor primário agropecuário. Em 1930, com o projeto de industrialização nacional, houve espaço para a expansão dos postos de trabalho urbanos, principalmente os industriais. Ocorre que da década de 80 pra cá, vem se reduzindo o espaço e a participação do emprego industrial. O que sobra em termos de expansão é o setor terciário, de serviços e comércio, embora esse segmento seja ainda pouco conhecido, uma vez que o chamado setor terciário resulta daquilo que não cabia no setor da indústria nem no setor agropecuário. Então o resto era considerado terciário.
E o que nós estamos observando é uma heterogeneidade enorme desses segmentos vinculados praticamente a atividades de serviços: segurança, limpeza e até, evidentemente, atividades extremamente novas e sofisticadas, vinculadas às novas linguagens, como as vias de comunicação e informação, e assim por diante. É um setor muito heterogêneo. O primeiro eixo que estrutura o novo trabalho é vinculado fundamentalmente às atividades do setor terciário da economia. A segunda grande novidade diz respeito à construção de uma nova classe trabalhadora, mais escolarizada, mais jovem, muito mais identificada com os interesses e os objetivos da empresa. Isso é muito diferente da classe econômica na década de 80. Em geral eram trabalhadores com menor escolaridade, geralmente migrantes do interior, da atividade agrária etc, menos vinculados à lógica da empresa e, portanto, mais suscetíveis à atividade sindical, que envolvia fundamentalmente a questão da remuneração, mais que outra coisa. Essa nova classe trabalhadora demanda um novo perfil da atividade sindical porque agora os sindicatos disputam com as empresas uma ação mais precisa junto a esses trabalhadores.
FEAAC - Nesse contexto os sindicatos se atrasaram em relação aos setores empresariais? Será que eles não perceberam que o trabalho e os trabalhadores mudaram?
Márcio - Eu acredito que há um descolamento, os empregadores foram muito mais rápidos na adaptação a essa nova realidade. Eles viveram uma crise sindical mais expressiva na passagem dos anos 70 para os 80. O sindicalismo naquele momento saiu na frente, na recuperação do chamado novo sindicalismo, e ganhou espaço naquela demanda contida que vinha do regime militar. O sindicato patronal amargou derrotas ao longo dos anos 80, mas a partir de 90 se recuperou muito mais rapidamente. Portanto, ele tem hoje uma postura mais adequada, digamos assim a essa nova realidade da produção e do trabalho. No caso do sindicalismo laboral, percebemos um descolamento entre as lideranças, a cúpula do sindicalismo e a base dos trabalhadores urbanos. Nesse sentido temos uma desaceleração daqueles indicadores que mostravam a força do sindicalismo nos anos 80. Há uma redução da sindicalização, da quantidade de greves, por exemplo, e uma certa distância dos trabalhadores em relação aos sindicatos. Acho que essa é uma questão importante.
O terceiro eixo da estrutura do trabalho é uma nova constituição da classe trabalhadora, muito diferente da classe passada e está diretamente relacionado à problemática e ao conflito inter-relacional que até então a gente não tinha. Esse conflito inter-relacional decorre, de um lado, da transição demográfica pela qual estamos passando. Isto é, cresce a participação das pessoas com maior idade no total da população, há um envelhecimento e, simultaneamente, os segmentos juvenis estão tendo uma interrupção no ingresso ao trabalho. Há um desemprego fortemente concentrado nas faixas mais novas e, ao mesmo tempo, as pessoas que estão se aposentando, graças às baixas remunerações que recebem, não abandonam o mercado de trabalho.
Essa é uma questão importante, revela o peso que as famílias têm com o custo de financiar a saída de casa cada vez mais tardia dos filhos. Os jovens ingressam mais tarde no mercado de trabalho, ou não conseguem ingressar de imediato em empregos formais. Isso contribui para que as próprias relações de trabalho hoje não absorvam a juventude, o que gera um descolamento em termos de juventude e disciplina no trabalho. Quer dizer, o trabalho já não vislumbra mais aquela perspectiva que se apresentava para os trabalhadores que ingressaram no mercado nos anos 50, 60, 70, quando havia a perspectiva de um emprego com carteira assinada, estabilidade e depois de algum tempo a pessoa teria acesso a uma aposentadoria. Provavelmente hoje, quando o jovem consegue ingressar no mercado de trabalho, ele não tem essa perspectiva.
FEAAC – Também mudou perfil do chamado chefe da família, ficando essa tarefa para a mulher e até para o idoso. Muitas famílias são sustentadas com a aposentadoria do idoso. Alguns sindicatos priorizaram os departamentos de aposentados, isso é bom ou ruim?
Márcio - Não é que seja ruim. Exige uma adaptação do sindicalismo para essa nova realidade. Quer dizer, não podemos olhar o mundo sindical como se estivéssemos dirigindo um automóvel e olhando o retrovisor. Agora se exige uma nova postura sindical.
FEAAC - O sindicato passa a ter de discutir o emprego, previdência, formação profissional...
Márcio - Os sindicatos precisam de um quadro mais preparado. Não são só as empresas que demandam funcionários mais qualificados. O sindicalismo parou um pouco, ele não conseguiu dar esse passo, qualificar e formar novos líderes, as escolas de preparação hoje têm a maior dificuldade de entrar no sindicalismo.
FEAAC – Recentemente foi divulgada uma pesquisa que revela dois dados simples e assustadores. Nos últimos anos houve uma pequena recuperação na massa de empregos, mas o valor desse trabalho e a sua qualidade caíram assustadoramente. O que é isso exatamente?
Márcio - Bom, em primeiro lugar, o emprego é determinado pelas condições gerais da economia. Nas duas ultimas décadas, e não somente que no Brasil, vem crescendo num ritmo muito reduzido. Nós estamos nos especializando na produção e na exportação de produtos de baixo valor agregado, pouco conteúdo tecnológico. O Brasil produz e exporta muito suco de laranja, açúcar, frango, salsicha. Nada contra a produção e exportação desses produtos. A questão é que esses produtos não permitem gerar emprego de qualidade em grande quantidade. São setores que dependem da competição internacional e há muitos países produzindo os mesmos produtos. Para que o Brasil consiga produtividade generosa, a competitividade está associada ao baixo custo da mão-de-obra. O mercado de trabalho revela essa condição mais geral. Se você cresce pouco, não tem como gerar emprego de qualidade. Ou você geraria pouquíssimo emprego de alta qualidade. Ou seja, qualidade e quantidade não podem andar de forma simultânea quando você tem um contexto macroeconômico como o que nós estamos vivendo. Nós temos tido uma evolução razoável da quantidade de emprego, mas acabou se comprometendo a qualidade. Não há milagre. Vem crescendo o emprego informal, ótimo, mas são empregos com salários muito baixos, submetidos a uma intensa rotatividade e, muitas vezes, com uma jornada muito maior do que aquela oficial. Então isso caracteriza uma espécie de padrão de emprego asiático, os salários estão em torno do salário mínimo e a jornada é extensa.
FEAAC - E sem necessidade de se investir em formação.
Márcio - Em geral as pessoas até têm mais escolaridade...
FEAAC - Mas acabam exercendo funções que não exigem essa escolaridade.
Márcio - Há uma qualidade da ocupação do posto de trabalho e há a outra qualidade do trabalhador. O trabalhador tem mais qualidade hoje do que tinha no passado. Ele tem maior escolaridade. No entanto, o conteúdo do trabalho não demanda esse tipo de qualificação. As empresas elevaram os requisitos de contratação. Elas contratam pessoas com mais escolaridade, independentemente disso ser de fato importante no local de trabalho. Elevar os requisitos de contratação está diminuindo o número de pessoas que se dispõem a trabalhar. Se elevou a escolaridade, mas não tem nada a ver, na maior parte das vezes, com a exigência de ocupação em si.
FEAAC - Para se reverter essa tendência a única receita é a economia do país crescer?
Márcio - Nós precisamos crescer de forma intensa, de 5 a 6% ao ano, e precisamos valorizar as cadeias produtivas, continuar exportando soja e café in natura, mas precisa de um forte investimento nesses segmentos com maior conteúdo tecnológico. Porque esses são segmentos que abrem a perspectiva de se contratar gente com maior remuneração.
FEAAC – Nós estamos na Unicamp. Qual o papel da universidade nesse contexto?
Márcio - Eu acho que não dá para pensar em educação descolada do contexto mais geral. Como a economia está parada, as pessoas não conseguem localizar um posto de trabalho. Evidentemente que uma estratégia de desenvolvimento do país significaria você associar a expansão da atividade econômica com o próprio modelo de universidade que se deseja. A questão que hoje tem sido discutida é a qualidade, isso é um bom problema. Se você tem a escola para todos, melhorar a qualidade talvez seja mais fácil que avançar na quantidade. Mas não é o caso. No ensino médio e universitário, temos que avançar não só na qualidade, mas também na quantidade. Aqueles que têm acesso à educação universitária representam um número muito pequeno. Em torno de 8% dos homens de 18 a 24 anos de idade se encontram na universidade. Se nós pensarmos hoje nos países de renda per capta equivalente ou um pouco acima da nossa, eles têm 30%, 40% dos jovens na universidade.
FEAAC - É na área de serviços em que há expansão do mercado de trabalho hoje?
Márcio - Eu acredito que no futuro o emprego vá passar justamente por tipos de atividades vinculadas à sociabilidade, ocupação do tempo, entretenimento, porque estamos vivendo um momento de ampliação de tempo de vida das pessoas, da longevidade. Todo mundo vive mais tempo e a relação de trabalho tende a ser menor. Portanto, estamos falando de uma sociedade cujo tempo de trabalho será maior. Como ocupar esse tempo de trabalho? Evidentemente que o entretenimento, a cultura, o turismo, a própria saúde e educação são áreas que têm relação direta. Em países como Estados Unidos e França, a gente percebe estritamente esse tipo de atividade. Agora essas atividades pressupõem renda. Dos usuários ou do público.
FEAAC - No nosso país ainda encontraremos problemas para crescer?
Márcio - Pessoas não são iguais a consumidores. Para serem iguais aos consumidores têm que ter renda e poder de compra. Se não há renda você pode ter a possibilidade de um segmento crescer, mas não necessariamente a taxas rigorosas, porque nós vivemos num país cuja exclusão, a má distribuição da renda é uma marca.